Estado vacinou 59% das meninas e 50% dos meninos, índices abaixo da média nacional; vacina é considerada uma das principais formas de prevenção contra cânceres associados ao HPV.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
O Acre ocupa atualmente a última posição no ranking nacional de vacinação contra o HPV. Mesmo após anos de campanhas e esclarecimentos sobre a segurança do imunizante, o estado ainda enfrenta dificuldades para recuperar a confiança da população e ampliar a cobertura vacinal entre adolescentes.
Dados de 2025 mostram que apenas 59% das meninas e 50% dos meninos acreanos receberam a vacina contra o HPV, os menores índices do país. No mesmo período, a média nacional foi de 86% entre as meninas e 74,5% entre os meninos.
Especialistas e gestores da saúde apontam que parte dessa resistência está relacionada a um episódio ocorrido em 2017, quando dezenas de adolescentes apresentaram sintomas como dores de cabeça, desmaios e convulsões após serem vacinados em municípios acreanos.
Na época, o caso ganhou repercussão nacional e provocou uma onda de desconfiança em relação ao imunizante.
Segundo a coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Renata Quiles, que já atuava na gestão da vacinação naquele período, o número de notificações de possíveis reações adversas disparou após a divulgação dos casos.
“Até 2017, nós tínhamos 14 casos notificados de possíveis efeitos adversos dos mais variados. Nós saímos de 14 para 127 casos notificados em seis meses por um comportamento da massa, estimulada pelo que se veiculava na imprensa e pelo medo natural da população”, relembrou.
Investigação descartou relação com a vacina
Uma força-tarefa envolvendo autoridades sanitárias e especialistas investigou os casos. Doze adolescentes com sintomas mais graves foram encaminhados para avaliação na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), onde passaram por exames especializados.
A conclusão dos especialistas foi de que os sintomas não foram causados pelos componentes da vacina.
Segundo os laudos, dois irmãos foram diagnosticados com epilepsia genética, enquanto os demais apresentaram uma condição conhecida como crise psicogênica não epilética (CNEP), uma resposta física involuntária desencadeada por estresse emocional.
Ou seja, os sintomas ocorreram após a vacinação, mas não foram provocados pelo imunizante.
Cobertura chegou a ficar abaixo de 10%
O impacto da repercussão foi imediato.
De acordo com Renata Quiles, nos anos de 2018 e 2019 menos de 10% dos adolescentes acreanos procuraram os postos de saúde para receber a vacina.
“O caso teve muita repercussão, mas eu não tive a mesma abertura para mostrar o resultado da investigação da USP que confirmou que nada estava relacionado com a vacina”, afirmou.
A diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), Mayra Moura, avalia que o episódio acabou sendo utilizado por grupos antivacina e contribuiu para reduzir a confiança da população em todo o país.
“A vacinação estava a todo vapor, dando super certo e, para usar um termo que os jovens usam, depois disso a vacina de HPV ‘flopou’”, comentou.
Recuperação lenta
Apesar do cenário ainda preocupante, a cobertura vacinal voltou a crescer nos últimos anos.
A coordenadora do PNI destaca que o trabalho de conscientização tem permitido avanços graduais e que a resistência da população vem diminuindo.
“O tempo passa e as coisas esfriam. As pessoas viram que a vacina continuou sendo administrada e ninguém mais apresentou nada daquilo. Hoje nós conseguimos conversar e convencer. No passado nem conversar nós conseguiríamos”, disse.
Entre as estratégias adotadas estão capacitações de profissionais de saúde, ações em escolas e campanhas de esclarecimento sobre a segurança e a eficácia da vacina.
Em Porto Walter, por exemplo, uma iniciativa denominada “Cinema da Imunização” ajudou a elevar a cobertura vacinal ao oferecer sessões de cinema para adolescentes que recebessem a vacina.
A ação contribuiu para imunizar mais de 200 jovens no município.
Proteção contra o câncer
A vacina contra o HPV é considerada uma das principais ferramentas de prevenção contra diversos tipos de câncer, especialmente o câncer do colo do útero.
Segundo especialistas, aproximadamente 99% dos casos da doença estão associados à infecção pelo vírus HPV.
Dados recentes indicam que os cânceres relacionados ao HPV provocam cerca de 7,5 mil mortes por ano no Brasil.
A estimativa é de que o câncer do colo do útero registre cerca de 19 mil novos casos anuais entre 2026 e 2028. O Acre aparece entre os estados com maiores taxas de incidência da doença.
Disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina é destinada a meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de grupos específicos definidos pelo Ministério da Saúde.
A pasta também mantém uma estratégia de resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos que não receberam a dose na idade recomendada. Desde a criação da medida, mais de 217 mil jovens já foram imunizados em todo o país.




